The High Cost Of Living
A maleta em sua mão pesava de maneira desconfortável, a alça parecia que tinha sido desenvolvida para criaturas com alguma coisa – que ele certamente não tinha – no lugar das mãos. O ambiente do escritório também não ajudava muito: quente, abafado, claustrofóbico. Ele suava e molhava o terno, que, a propósito, estava apertado, assim como os sapatos, e doíam a cada passada larga e apressada.. Ele estava atrasado e ainda tinha de encontrar a sala de reunião 66 do 6º andar. Todas as salas de reunião tinham o número 66 e e estavam no 6º andar ele suspirou e tentou se conformar: se fosse fácil, não seria o inferno.
Entrou na sala de reunião exasperado. A maleta abriu no meio do caminho até a mesa do palestrante e ele pediu desculpas (que foram ignoradas) enquanto tentava juntar os papéis e começar sua apresentação. Finalmente conseguiu fazer o projetor funcionar, e, quando levantou os olhos e viu os chefes, quis poder morrer de novo engoliu em seco e começou seu discurso.
“Senhores, deve ser do conhecimento de todos que nossos negócios têm tido uma grande perda na entrada de receitas através de vendas diretas, que, como todos sabem, é a nossa principal fonte de renda, apesar de um grande aumento nas vendas propriamente ditas.
O nosso problema, da maneira como o interpreto, está na tarifação: ainda utilizamos o antigo – porém corretíssimo, corretíssimo, senhor! – sistema de tarifamento criado por nosso fundador, que estabelece a cobrança de uma alma por favor concedido. Porém, como eu pude analisar, a maioria de nossos clientes não a têm completa no momento da contratação de nossos serviços. Para ilustrar melhor, trago aqui como exemplo uma alma recentemente adquirida da nação que é nossa maior fornecedora de clientes.
Tomando o nascimento desta criatura como ponto de partida, vemos facilmente que três anos depois ela entregou a primeira fração de sua alma quando foi colocado em uma escola e teve de adequar-se a regras mentirosas e injustas. Mais uma parcela da mesma foi perdida na entrada da adolescência, quando começou a seguir ídolos e sacrificou a sua individualidade em nome de ícones. Com a primeira namorada traída, perdeu mais uma porcentagem de sua alma para a angústia que ele mesmo gerou.
No entanto, devemos atentar-nos para a sua vida adulta, onde uma boa parte de sua alma foi perdida gradativamente na entrada, curso e término da faculdade, onde tomou ciência da maneira arbitrária como as decisões são tomadas. Entregou mais um pedaço de nossa moeda quando deixou o amor de sua vida para casar-se, e a maior parte dela foi desgastando-se em estresse, maltrato, ser usado por e usar pessoas de forma cotidiana no que eles chama de emprego. Uma parcela também foi perdida num divórcio tardio.
Podemos ver, portanto, que a perda da alma é gradativa e acentuada. Desta forma, quando a cobramos de nossos clientes, recebemos moedas incompletas, visto que a maior parte da alma foi perdida para o mundo.”
Um tapa de uma mão enorme e ameaçadora parou qualquer pensamento na sala. O grande chefe de todos os departamentos locais vociferou “Já chega, inútil! O que estamos vendo aqui?”
Tremendo, o jovem apenas balbuciou uma resposta:
“Que o nem o inferno consegue mais destruir tantas almas quanto fazem os próprios humanos.”
24/ Abril /2008 às 5:24 pm
Olha… uma ótima construção, bastante pertinente aos dias de hoje…
E pode ser facilmente trazida à realidade de todos nós…
Apesar da minha descrença em céu e inferno, o uso dessa colocação, para relativizar a que ponto a humanidade chegou, foi muito bem feito…
E digo mais, ficou bastante atraente a leitura.
Muito bom