Cartas Abertas

Um ás de espadas pousou na mesa e as respirações calaram-se. Mais um ás e punhos cerram-se, esmurraram a mesa. Diversas fichas de plástico trocaram de dono, dono esse que levantou-se e saiu da sala, enquanto os outros contavam as fichas que sobraram.

Muitos quilômetros depois, o dono das fichas sentou-se em uma cadeira diante de uma lata de lixo com muitos papéis. Acendeu um esqueiro e a lata, admirando as chamas que cresciam rapidamente. Abriu seu fiel baralho e começou a tirar as cartas, uma a uma.

A primeira foi o ás de copas, o coração solitário. Fez uma volta romtântica no ar e começou a queimar, junto com todas as mulheres do passado, todas as cartas entregues, todas as declarações de amor.

Seguiu-se o nove de espadas, o pequeno exército, que enfrentou as chamas de frente, junto com todos que ele havia deixado para trás, todos os aliados esquecidos, todas as chances de liderar.

Mais uma carta era o rei de paus, que evitou o fogo com a mesma covardia que ele tivera quando pode lutar. Como antes, foi pego do chão e arremessado no fogo impiedoso.

Veio então a rainha de ouros, que ele atirou ao fogo sem pensar nos significados. Mesmo destino teve o velete de paus, logo a seguir.

Parou e olhos com calma para o dois de copas, os corações casados. A carta estava gasta, e queimou antes de atingir as labaredas, assim como o único amor verdadeiro.

Jogou rápido e logo em seguido três de copas. Não queria lembrar da história. Conseguiu.

A dama de copas caiu do pacote enquanto ele puxava o dois de espadas, o duelo. Queimou-se sem ser vista. Melhor assim. O duelo ficou pousado na mão do dono por alguns segundos enquanto ele lembrava da primeira derrota. O duelo foi queimado

O fogo começou a enfraquecer e pedia por alimento. Diversas cartas foram jogadas para tal, devagar.  mas o dono segurou duas cartas, duas especiais.

A primeira delas era um ás de ouros. O tesouro único, inesquecível, indispensável e insubstituível.

A outra também.

Ambas enfrentaram o fogo como todas as outras, e viraram cinzas como todas as outras. O baralho acabou e, com ele, o último jogo. O dono tinha tudo o que precisava: foi para uma ilha esquecer que estava vivo e ser feliz assim.

É possível trapacear na vida?

Uma resposta para “Cartas Abertas”

  1. Meh, estou em outra sintonia. Talvez não aprecie tanto por isso, e veja apenas uma metáfora esticada além dos limites onde outros vêem beleza. Diz o sujeito que nunca mapeou mais que duas cartas em qualquer baralho a histórias pessoais.

    Justiça poética, a pergunta? Talvez. Acho mais que as deficiëncias que levam um a ter interesse em algo prejudicial a outrem que causam as próprias falhas. See also: hubris.

Deixe uma resposta